Chão Que Não Se Pisa, Não Dá Fruto

Ao longo de quatro meses, percorri um território que me é familiar — o interior florestal do centro de Portugal — fora da época e das câmaras. A atenção só chega quando arde. Quis perceber o que existe no intervalo: o abandono, o silêncio, e uma relação entre pessoas, lugares e natureza em contínua desertificação.

O Pinhal Interior — as colinas do centro de Portugal, um território de vales profundos, aldeias dispersas e populações em declínio — carrega uma contradição difícil de ignorar. A terra deve o nome aos pinheiros que a definiram durante séculos, mas o eucalipto, plantado para a indústria do papel, cobre hoje grande parte das encostas. Ambos ardem depressa e com violência, e os incêndios não são aqui uma excepção, mas uma constante. O mesmo fogo que destrói é o que aquece; o que ameaça é também o que deu sustento a gerações. É um território historicamente pobre e esquecido, onde o despovoamento e o abandono não são apenas um problema do quotidiano — são também uma das origens da monocultura que tornou os incêndios de 2017 nos mais mortíferos da história europeia.

O título vem da terra, de quem lá fica e de quem partiu. O inverno da extracção, o verão da devastação. Quis registar esse período esquecido do ano, e as pessoas e lugares que nele persistem.